Artigo: Carro elétrico – Pedro Valls Feu Rosa

Pedro Valls Feu Rosa é cronista e desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

Não faz muito tempo uma grande montadora de veículos do Reino Unido decidiu ser inevitável a “revolução do carro elétrico”. Aderiu a este processo. Já fabrica, a cada ano, 35.000 veículos movidos exclusivamente por energia elétrica. Anunciou que dentro de poucos anos não mais fabricará veículos movidos a gasolina ou diesel.

Eis que alguém decidiu calcular o impacto deste processo para a economia do país. Concluiu-se que serão afetadas 2.500 empresas fornecedoras de peças, que empregam nada menos que 180.000 pessoas.

Não haverá, registre-se, queda no número de empregos. Eles apenas serão transferidos para setores outros – e com vantagens para a economia. O problema é que demandarão qualificação distinta. Tradução: haverá, ainda que temporariamente, um problema social a ser enfrentado.

Recente estudo do Conselho de Inteligência dos Estados Unidos da América, a propósito, alertou para o fato de que nesta década, dadas as brutais transformações previstas pela introdução de novas tecnologias, problemas sociais localizados poderão resultar em aumento de desigualdade e em sociedades conflituosas.

A observação procede. Dada empresa de consultoria norte-americana previu que a década de 2020 a 2030 deverá ser uma das mais disruptivas da história. Apenas para que se tenha uma singela noção do quanto, ao seu final o mercado de automóveis terá sido reduzido em uns bons 80%. A queda nos custos de energia revolucionará a economia. As cidades passarão por um redesenho sensível.

Este poderá ser um processo excepcional. Abrir-se-á uma janela de oportunidades única – mas apenas para aqueles que estiverem preparados. E já prenuncia-se escasso o tempo.

Dois comportamentos tem sido adotados ao redor do mundo, diante da iminência de tantas mudanças.

O primeiro deles é sábio. Consiste no aprimoramento dos mecanismos de qualificação da força de trabalho. Em melhorias na infraestrutura oferecida à economia como um todo. No incentivo às empresas e pessoas que estejam se preparando ou aderindo a este processo de mudanças.

O segundo é medíocre. Consiste no recurso ao mundo das leis e da burocracia, buscando-se retardar o inevitável através de restrições ao novo e incentivos ao velho. Um caminho penoso de contraste com o mundo.

Qual tem sido, historicamente, o comportamento do Brasil?